Drogas na Gravidez

A. M. Silvany Filho: Livre-Docente em Anatomia, Fisiologia Patológica, histologia e embriologia pela UFBA.

Influência sobre o Concepto

Após a estratégia da talidomida, no início dos anos 60, tranquilizante que produziu milhares de crianças defeituosas, os toxicologistas, farmacologistas e obstetras passaram-se a preocupar-se com a necessidade de pesquisar a ação teratogênica das drogas, antes de permitir o seu uso em pacientes grávidas. Foram exigidos testes farmacológicos, pré-clínicos além dos clinicamente recomendados, visando a estabelecer o potencial teratogênico, carcinogênico e mutagênico de drogas sob análise.

Os distúrbios que podem ocorrer no concepto são verificados desde a ação das drogas sobre os gametas até as alterações que determinam sobre as secreções genitais, modificações moleculares nas células sexuais e influência sobre a nidação e parturição.

As substâncias farmacologicamente ativas penetram no organismo como poluentes ambientais, alimentos ou agentes terapêuticos. Os danos podem ser evidentes imediatamente, em todos os estádios do desenvolvimento humano, ou, de maneira protraída, em futuro variável, no período perinatal ou pós-natal.


O conhecimento na farmacocinética e farmacodinâmica dos medicamentos prescritos é indispensável na avaliação dos efeitos.

Dentro da experiência acumulada durante muitos anos de pesquisa, muitas drogas são considerada comprovadamente teratogênicas, como, por exemplo, a talidomida, aminopterina, metotrexano, progestágenos, tetraciclinas, dicumarol, trimetadiona, parametadiona, valproato, quinina, dietilestilbestrol. 

Outras drogas são potencialmente teratogênicas, tendo sido comprovadas dismorfogenias em animais, como, por exemplo, barbitúricos, aspirina, dexanfetamina, nicotina, heroína, reserpina, hidrocortisona.

A ação das drogas sobre o ser em formação ocorre em todos os períodos. Grandes doses de narcóticos, anestésicos inalatórios, podem deprimir o sistema nervoso central provocando problemas respiratórios no pós-parto imediato. Recém-nascidos de mães alcoólatras ou dependentes de narcóticos apresentam sintomas da síndrome de abstinência, como irritabilidade, vômitos e choro agudo. Mencionam-se, também, no alcoolismo crônico, microcefalias, fissuras palpebrais, nariz em sela. A mãe sob a ação do diazepam pode dar à luz uma criança com hipotermia ou hipotonia. O uso de fumo durante a gravidez aumenta a taxa de abortamentos e de morte neonatal e retarda o crescimento do concepto. A reserpina provoca congestão nasal, letargia e bradicardia no recém-nascido.



Conceito de Teratologia

A farmacoteratologia é o ramo da farmacologia que estuda as anomalias congênitas produzidas por drogas. É um tipo especial de iatrogenia.

Os defeitos de formação aparecem em gradientes variáveis, em aspectos os mais diversos, simples ou, mais frequentemente, múltiplos. Existem defeitos maiores e outros menores. O maior problema é perceber os defeitos mínimos, capazes, às vezes, de serem confundidos com as variações individuais. O estabelecimento de padrão normal em determinada espécie, deverá ser determinado em através de análise complexa, no exame de amostras significativas, mensurada através de cálculos estatísticos, em termos também antropológicos, genéticos e funcionais, correlacionando os efeitos observados com grupos controle, representativos e limitados a todas as variações.

Algumas anomalias congênitas são tão graves que tornam a vida impossível, como, por exemplo, as anencefalias; outras são triviais e sem expressão funcional, sendo apenas reveladas acidentalmente no curso de autópsias ou exames com outras finalidades, como, por exemplo, a polidactilia, o divertículo de Meckel. 

Anomalias congênitas em órgãos internos podem produzir modificações clínicas precoces e assim tão logo reconhecidas. Em outros casos, revelam-se acidentalmente, como a agenesia renal unilateral e a rede de Chiari, observada no coração, nas proximidades da veia cava superior.

A malformação aberrante, bizarra, extremo de anormalidade anatômica, é denominada de monstruosidade, e o ser é um monstro.
Os defeitos que decorrem de traumatismos obstétricos não são de natureza congênita, e são mencionados como lesões obstétricas ou lesões do nascimento, ou co-natais.



Cronologia dos Efeitos das Drogas

De acordo com o tempo de ocorrência das malformações, designam-se os defeitos ocorridos no:


  •    Período pré-concepcional (gametopatias), quando a droga atua sobre os gametas ensejando o aparecimento do concepto com defeitos;
  •    Tempo ovular (ovopatias), sucedendo desde a formação do blastocisto e seu período de pré-implantação, até a formação dos sômitos;
  •   Tempo embrionário (embriopatias), os defeitos determinados pelas drogas atuam na terceira a oitava semana de gestação;
  •   Tempo fetal (fetopatias), quando a ação teratogênica ocorre no início da nona semana de gestação e segue até o final da gestação.

Beeley e Miller realçam que o tipo de reação produzida pelo feto depende do estádio de desenvolvimento no qual a droga atua. Afora as modificações produzidas nos gametas, ainda nas gônadas, reconhecem as seguintes etapas:


  •    Pré-implantação pelo menos 12 dias desde a concepção ou fertilização até a nidação do ovo;
  •   Organogênese, durando de 13 a 56 dias (estes dois tempos ou períodos são referidos na literatura sobre a ação teratogênica das drogas como primeiro trimestre da gravidez);
  •   Tempo fetal compreendendo o 2º e 3º trimestre, onde o fato principal é o desenvolvimento do ser em formação;
  •   Um período curto, compreendendo o trabalho de parto, com o delivramento do recém-nascido.


Importante: As malformações anatômicas têm seus riscos potencialmente aumentados de aparecimento, quando determinadas drogas são administradas no primeiro trimestre da gestação.